1. As dúvidas se nos multiplicam entre as mãos, e assim não podemos ir adiante tão depressa quanto desejamos. Porque, pelo mesmo motivo de as suscitarmos, somos necessariamente obrigados a resolvê-las, para dar toda clareza e força à verdade da doutrina. Todavia há sempre vantagem nessas dúvidas: embora nos detenham um pouco os passos, servem para ensinar e elucidar o nosso intento, como veremos pela seguinte objeção.
2. No capítulo anterior dissemos como não é vontade de Deus que as almas queiram receber por via sobrenatural graças extraordinárias de visões, palavras interiores etc. Por outra parte vimos nesse mesmo capítulo e o provamos com testemunhos da Sagrada Escritura, como na antiga lei este modo de tratar com Deus era usado e lícito; e não somente era lícito, mas ainda o próprio Deus o mandava, repreendendo o povo escolhido quando o não fazia. Em Isaías, podemos observar como Deus admoestou os filhos de Israel porque desejavam descer ao Egito sem primeiramente consultar o Senhor: “E não tendes consultado o meu oráculo” (Is 30,2). Também lemos em Josué que, sendo enganados os mesmos filhos de Israel pelos gabaonitas, censurou-os o Espírito Santo nestes termos:
“Tomaram os israelitas dos seus víveres, e não consultaram o oráculo do Senhor” (Js 9,14). Igualmente vemos, na Sagrada Escritura, que Moisés sempre consultava o Senhor, e o mesmo fazia o rei Davi, e todos os outros reis de Israel em suas guerras e necessidades, bem como os sacerdotes e antigos profetas. Deus lhes respondia falando-lhes sem se desgostar. Assim era conveniente e se eles não interrogassem seria mal feito. Qual o motivo, pois, de não ser agora, na nova Lei da graça, como era antigamente?
3. Respondo: se essas perguntas feitas a Deus eram lícitas na antiga Lei, e se convinha aos profetas e sacerdotes desejarem visões e revelações divinas, a causa principal era não estarem bem assentados os fundamentos da fé, nem estabelecida a Lei evangélica. Assim era mister interrogar a Deus e receber as suas respostas, fosse verbalmente, ou por meio de visões ou revelações, fosse em figuras ou símbolos, ou, afinal, por sinais de qualquer outra espécie. Porque todas essas palavras e revelações divinas eram mistérios da nossa fé, referentes ou relacionadas a ela. Ora, não sendo as realidades da fé próprias da criatura humana, mas de Deus, reveladas por sua própria boca, era necessário que os homens fossem conhecê-las em sua mesma fonte. Eis por que o Senhor os repreendia quando não o consultavam; e com as suas respostas os encaminhava, através dos acontecimentos e sucessos, para a fé, por eles ainda desconhecida por não estar ainda fundada. Agora, já estabelecida a fé em Cristo, e a Lei evangélica promulgada na era da graça, não há mais razão para perguntar daquele modo nem aguardar as respostas e os oráculos de Deus, como antigamente. Porque em dar-nos, como nos deu, o seu Filho, que é a sua Palavra única (e outra não há), tudo nos falou de uma vez nessa Palavra, e nada mais tem para falar.
4. Este é o sentido do texto em que S. Paulo quer induzir os hebreus a se apartarem daqueles primitivos modos de tratar com Deus conforme a lei de Moisés, e os convida a fixar os olhos unicamente em Cristo, dizendo: “Tudo quanto falou Deus antigamente pelos profetas a nossos pais, de muitas formas e maneiras, agora, por último, em nossos dias, nos falou em seu Filho, tudo de uma vez” (Hb 1,1). O Apóstolo dá-nos a entender que Deus emudeceu por assim dizer, e nada mais tem para falar, pois o que antes falava por partes aos profetas, agora nos revelou inteiramente, dando-nos o Tudo que é seu Filho.
5. Se atualmente, portanto, alguém quisesse interrogar a Deus, pedindo-lhe alguma visão ou revelação, não só cairia numa insensatez, mas agravaria muito a Deus em não pôr os olhos totalmente em Cristo sem querer outra coisa ou novidade alguma. Deus poderia responder-lhe deste modo dizendo: Se eu te falei já todas as coisas em minha Palavra, que é meu Filho, e não tenho outra palavra a revelar ou responder que seja mais do que ele, põe os olhos só nele; porque nele disse e revelei tudo, e nele acharás ainda mais do que pedes e desejas. Porque pedes palavras e revelações parciais; se olhares o meu Filho acharás nele a plenitude; pois ele é toda a minha palavra e resposta, toda a minha visão, e toda a minha revelação. Ao dar-vo-lo como irmão, mestre, companheiro, preço e recompensa, já respondi a todas as perguntas e tudo disse, revelei e manifestei. Quando no Tabor desci com meu espírito sobre ele dizendo: “Este é meu Filho amado em quem pus todas as minhas complacências, ouvi-o” (Mt 17,S), desde então aboli todas as antigas maneiras de ensinamentos e respostas, entregando tudo nas suas mãos. Procurai, portanto, ouvi-lo; porque não tenho mais outra fé para revelar, e nada mais a manifestar. Se antes falava, era para prometer o meu Cristo; se os meus servos me interrogavam, eram as suas perguntas relacionadas com a esperança de Cristo, no qual haviam de achar todo o bem (como o demonstra toda a doutrina dos evangelhos e dos apóstolos). Mas interrogar-me agora e querer receber minhas respostas como no Antigo Testamento, seria de algum modo pedir novamente Cristo e mais fé; tal pedido mostraria, portanto, falta desta mesma fé já dada em Cristo. E assim seria grande agravo a meu amado Filho, pois, além da falta de fé, seria obrigá-lo a encarnar-se novamente, vivendo e morrendo outra vez na terra. Não acharás, de minha parte, o que pedir-me nem desejar, quanto a revelações ou visões; considera-o bem e acharás nele, já feito e concedido tudo isto e muito mais ainda.
6. Queres alguma palavra de consolação? Olha meu Filho, submisso a mim, tão humilhado e aflito por meu amor, e verás quantas palavras te responde. Queres saber algumas coisas ou acontecimentos ocultos? Põe os olhos só em Cristo e acharás mistérios ocultíssimos e tesouros de sabedoria e grandezas divinas nele encerrados, segundo o testemunho do Apóstolo: “Nele estão encerrados os tesouros da sabedoria e da ciência” (CI 2,3). Esses tesouros da sabedoria ser-te-ão muito mais admiráveis, saborosos e úteis que tudo quanto desejarias conhecer. Assim glorificava-se o mesmo Apóstolo quando dizia: Porque julguei não saber coisa alguma entre vós, senão a Jesus Cristo, e este crucificado (1Cor 2,2). Enfim, se for de teu desejo ter outras visões ou revelações divinas, ou corporais, contempla meu Filho humano e acharás mais do que pensas, conforme disse também S. Paulo: “Porque nele habita toda a plenitude da divindade corporalmente” (Cl 2,9).
7. Não convém, pois, interrogar a Deus por via sobrenatural, nem é necessário falar-nos desse modo; tendo manifestado toda a fé em Cristo, não há mais fé a revelar nem jamais haverá. Querer receber conhecimentos por via extraordinária é, conforme dissemos, notar falta em Deus, achando não nos ter dado bastante em seu Filho. Mesmo quando se deseja essa via sobrenatural dentro da fé, não deixa de ser curiosidade proveniente de fé diminuta. Assim não havemos de querer nem buscar doutrina ou outra coisa qualquer por meio extraordinário. Quando Jesus expirando na cruz exclamou: “Tudo está consumado,” (Jo 19,30), quis dizer terem-se acabado todos esses meios, e também todas as cerimônias e ritos da Lei antiga. Guiemo-nos, pois, agora pela doutrina de Cristo-homem, de sua Igreja e seus Ministros, e por este caminho, humano e visível, encontraremos remédios para nossas ignorâncias e fraquezas espirituais, pois para todas as necessidades aí se acha abundante remédio. Sair desse caminho não só é curiosidade, mas muita audácia; não havemos de crer, por via sobrenatural, senão unicamente o que nos é ensinado por Cristo, Deus e homem, e seus ministros, homens também. É isto o que nos diz S. Paulo nestas palavras: se algum anjo do céu vos ensinar outra coisa fora do que nós, homens, vos pregamos, seja maldito e excomungado (Gl 1,8).
8. Sendo, portanto, verdade, que sempre havemos de praticar agora o que Cristo nos ensinou, e tudo o mais fora disso é nada, nem se há de crer senão em conformidade com a doutrina evangélica, perde seu tempo quem quer tratar com Deus como na antiga Lei. Além do mais, naquela época, não era permitido a todos interrogar o Senhor, e Deus não respondia sem distinção de pessoas. Dava seus oráculos somente aos pontífices e profetas, homens que tinham a missão de transmitir ao povo a lei e a doutrina. Quem desejasse consultar a Deus, fazia-o por intermédio do profeta e do sacerdote e não por si mesmo. Se Davi interrogou algumas vezes o Senhor, era por ser profeta; ainda assim, nunca o fazia sem as vestes sacerdotais, como se vê no primeiro Livro de Samuel, quando disse ao sacerdote Abimelec: “Traze-me o efod” (lSm 30,7), que era uma das principais vestes dos sacerdotes e com ela consultou ao Senhor. Outras vezes, dirigia-se a Natã ou a outros profetas, para consultar a Deus. Pela palavra dos sacerdotes e dos profetas, não segundo o próprio parecer, cada um se assegurava do que lhe era dito, da parte de Deus.
9. E, assim, os oráculos divinos não tinham força nem autoridade alguma, para que lhes fosse dado inteiro crédito se não estivessem sancionados pelos profetas e pontífices. Deus gosta tanto de ver o homem governado e dirigido por outro homem, seu semelhante, regido e guiado pela razão natural, que quer de modo absoluto não se creia nas comunicações sobrenaturais, nem se confirmem estas com segurança, senão quando hajam passado por este canal humano da boca do homem. Deste modo, quando Deus diz ou revela algo a uma alma, inspira-lhe ao mesmo tempo a inclinação de comunicá-lo a quem convém dizer; e até que isto se faça não costuma ele dar plena satisfação, porque não a tomou o homem de outro que lhe é semelhante. Está escrito no livro dos Juízes que Gedeâo, não obstante ter recebido do Senhor a segurança da vitória, duvidava e temia ainda. Deus o deixou nessa dúvida e pusilanimidade até o momento em que recebeu da boca dos homens a confirmação da promessa divina. Vendo-o tão abatido, disse-lhe o Senhor: “Levanta-te e desce ao campo… e tendo ouvido o que eles falam, então se confortarão as tuas mãos, e descerás com segurança ao campo dos inimigos” (Jz 7, 11). E assim foi. Estando Gedeão no campo, ouviu um madianita contar a outro um sonho que tivera, no qual vira que o mesmo Gedeão os havia de vencer; e, com isto, animou-se a começar a batalha com grande alegria. Por este fato vemos como Deus não quis que Gedeão se assegurasse só por via sobrenatural, mas fosse confirmado naturalmente.
10. Muito mais admirável o exemplo de Moisés. Ordenara-lhe o Senhor, com muitas razões, confirmando sua ordem com os prodígios da vara transformada em serpente e da mão leprosa, que fosse libertar os filhos de Israel. No entanto, Moisés permanecia tão fraco e irresoluto para obedecer que, apesar do descontentamento de Deus, jamais se determinava a ir. Só teve coragem quando o Senhor o animou dizendo: “Eu sei que Aarão, teu irmão, filho de Levi, é eloqüente: vê, ele te sai ao encontro, e vendo-te se alegrará no seu coração. Fala-lhe, e põe as minhas palavras na sua boca; e eu serei na tua boca e na dele para que cada um receba a confirmação da boca do outro” (Ex 4, 14-15).
11. A estas palavras se conformou Moisés, com a esperança do consolo que do conselho de seu irmão havia de receber. Deste modo procede a alma humilde: não ousa tratar só com Deus nem se contenta e assegura enquanto não se submete ao governo e conselho humano. E Deus assim o quer; quando alguns se juntam a conferir uma verdade, ele está presente no meio deles para esclarecê-la e confirmá-la em seus espíritos, por meio da razão natural, como aconteceu a Moisés e Aarão, aos quais prometeu o Senhor falar pela boca de um e outro, quando agissem conjuntamente. Também diz o mesmo Senhor no Evangelho: Onde se acham dois ou três congregados em meu nome, para examinar o que é mais vantajoso à minha honra e glória, aí estou eu no meio deles (Mt 18, 20), para fazer brilhar em seus corações o esplendor das verdades divinas. Notável é não ter dito que onde estiver um só ali estará ele – mas estará onde estiverem ao menos dois. Com isso nos ensina não ser permitido ao homem julgar sozinho as coisas divinas e nelas se apoiar, sem o conselho e a direção da Igreja e dos seus ministros. Deus não se faz presente àquele que está só; não o esclarece na verdade, nem a confirma no seu interior, deixando-o deste modo tíbio e fraco em ralação à mesma verdade.
12. Exclama o Elesiastes, encarecendo muito este ponto: Ai do que está só, porque quando cair não tem quem o levante. E se dormirem dois juntos, aquecer-se-ão mutuamente (isto é, pelo fogo da caridade que está entre eles); mas um só como se há de aquentar? Isto é, como não será frio nas coisas de Deus? E se alguém mais forte prevalecer contra um deles (isto é, o demônio que prevalece desse modo contra os que querem conduzir-se sós), dois lhe resistirão, a saber, o mestre e o discípulo que se reúnem para conhecer a verdade e praticá-la (Ecl 4, 10-12). O homem isolado geralmente se sente fraco, frio na interpretação da verdade, mesmo quando a recebe da boca de Deus. S. Paulo, depois de haver pregado muito o Evangelho, dizendo tê-lo recebido de Deus e não dos homens, não descansou até ir conferi-lo com S. Pedro e os outros apóstolos. E com este receio, dizia “Por temor de correr ou de haver corrido em vão” (Gl 2, 2). Não se tinha por seguro, enquanto não recebeu a confirmação humana. Coisa digna de ponderação, ó Paulo! Aquele que vos revelou o Evangelho não poderia também revelar-vos a segurança de não errar na pregação de sua verdade?
13. Nisto compreendemos, claramente, como não há certeza nas coisas reveladas por Deus, senão segundo esta ordem aqui explicada. Porque, embora a pessoa que recebe a comunicação divina esteja convicta, como estava S. Paulo a respeito do Evangelho que começara a pregar, pode errar no conhecimento da revelação e a seu respeito. Porque o Senhor por dizer uma coisa, nem sempre diz a outra, e muitas vezes não indica o modo de executar o declarado na revelação. Ordinariamente tudo o que se pode fazer por indústria ou conselho humano, Deus não o faz nem o diz por si mesmo, ainda tratando mui freqüentemente, e com muita intimidade com alguma alma. Como já dissemos, muito bem sabia disso S. Paulo, quando foi conferir o seu Evangelho, mesmo estando convencido de que o recebera por revelação divina. Eis ainda outra clara prova tirada do Êxodo. Deus, embora tivesse relações tão íntimas com Moisés, nunca lhe havia dado o conselho tão salutar que lhe deu Jetro, seu sogro, induzindo-o a escolher outros juízes para ajudá-la nos seus afazeres, para o povo não ficar esperando da manhã à noite (Ex 18,21-22). Deus aprovou esta sábia medida, que não quisera aconselhar diretamente a Moisés; porque era conselho ao alcance do raciocínio e juízo humano. Do mesmo modo tudo o que nas visões e palavras interiores pode ser resolvido por meio humano, não o costuma Deus revelar; sua intenção é que os homens recorram a esse meio, a não ser nas coisas da fé, superiores a todo juízo e toda inteligência criada, sem, todavia, lhes serem contrárias.
14. Ninguém imagine que, pelo fato de tratar familiarmente com Deus e seus santos, há de saber por modo sobrenatural os próprios defeitos, podendo conhecê-las por outra via. Não existe motivo para ter segurança em agir assim; com efeito, lemos nos Atos dos Apóstolos que S. Pedro, chefe da Igreja, instruído diretamente pelo Senhor, errou mantendo entre os gentios o uso de certa cerimônia judaica. Todavia guardava Deus o silêncio a tal ponto que S. Paulo foi obrigado a censurar S. Pedro, como ele próprio o afirma: “Mas quando vi que não andavam direito segundo a verdade do Evangelho, disse a Pedro, diante de todos: Se tu, sendo judeu, vives como os gentios, e não como os judeus, por que obrigas tu os gentios a judaizar?” (Gl 2,14). E O Senhor não advertia diretamente a S. Pedro de sua falta; porque aquela simulação era coisa que podia saber por via ordinária e racional.
15. Ver-se-á, no dia do juízo, o Senhor castigar faltas e pecados de almas honradas na terra com suas relações íntimas e favorecidas com muitos dons e luzes: porque, demasiadamente confiantes naquele trato familiar com Deus, descuidaram-se de muitas coisas que cabiam dever fazer. E, como disse Cristo no Evangelho, cheias de espanto exclamarão: “Senhor, Senhor, não é assim que profetizamos em teu nome, e em teu nome expelimos os demônios, e em teu nome obramos muitos prodígios?” E o Senhor lhes responderá: “Pois eu nunca vos conheci; apartai-vos de mim, os que obrais a iniqüidade” (Mt 7,22-23). Nesse número estão o profeta Balaão e outros semelhantes que, embora lhes tivesse Deus falado, e concedido graças, eram pecadores. Repreenderá também o Senhor, de modo relativo, aos seus escolhidos e amigos, com os quais na terra se comunicou mui familiarmente, censurando então as faltas e descuidos que hajam tido; porque nessas faltas não era mister serem admoestados diretamente pelo Senhor, visto como pela lei e razão naturais já de os advertia.
16. Terminando este assunto, chegamos à seguinte conclusão: a alma deve confiar logo a seu diretor espiritual com clareza, exatidão, verdade e simplicidade, todas as graças sobrenaturais recebidas.
(…)
(São João da Cruz, Subida do Monte Carmelo, cap. XXII)