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Quando dizemos que a Sagrada Eucaristia é o maior dos sacramentos, afirmamos algo evidente. O Batismo é, sem dúvida, o sacramento mais necessário; sem ele, não podemos ir para o céu. No entanto, apesar das maravilhas que o Batismo e os outros cinco sacramentos produzem na alma, não são senão instrumentos de que Deus se serve para nos, dar a sua graça; mas na Sagrada Eucaristia não temos apenas um instrumento que nos comunica as graças divinas: é-nos dado o próprio Dador da graça, Jesus Cristo Nosso Senhor, real e verdadeiramente presente.

“A Eucaristia é «fonte e centro de toda a vida cristã» (LG 11). «Os restantes sacramentos, porém, assim como todos os ministérios eclesiásticos e obras de apostolado, estão vinculados com a sagrada Eucaristia e a ela se ordenam. Com efeito, na santíssima Eucaristia está contido todo o tesouro espiritual da Igreja, isto é, o próprio Cristo, nossa Páscoa» (PO 5)” (n. 1324).

O sacramento do Corpo e do Sangue de Cristo tem tido muitos nomes ao longo da história cristã: Pão dos Anjos, Ceia do Senhor, Sacramento do altar e outros que nos são bem conhecidos. Mas o nome que permaneceu desde o princípio, o nome que a Igreja dá oficialmente a este sacramento é Sagrada Eucaristia. Provém do Novo Testamento. Os quatro escritores sagrados - Mateus, Marcos, Lucas e Paulo - que nos narram a Última Ceia dizem-nos que Jesus tomou o pão e o vinho em suas mãos e “deu graças”. E assim, da palavra grega eucharistia, que significa “ação de graças”, resultou o nome do nosso sacramento: Sagrada Eucaristia.

O Catecismo ensina-nos que a Eucaristia é ao mesmo tempo sacrifício e sacramento. Como sacrifício, a Eucaristia é a Missa, a ação divina em que Jesus, por meio de um sacerdote humano, transforma o pão e o vinho no seu próprio corpo e sangue e continua no tempo o oferecimento que fez a Deus no Calvário, o oferecimento de Si próprio em favor dos homens.

“A sagrada Eucaristia completa a iniciação cristã. Aqueles que foram elevados à dignidade do sacerdócio real pelo Batismo e configurados mais perfeitamente a Cristo pela Confirmação, esses, por meio da Eucaristia, participam, com toda a comunidade, no próprio sacrifício do Senhor. [...] A Eucaristia é o memorial da Páscoa de Cristo, a atualização e oferecimento sacramental do seu único sacrifício, na Liturgia da Igreja que é o seu Corpo” (ns. 1322 e 1362).

O sacramento da Sagrada Eucaristia adquire o seu ser (ou é “confeccionado”, como dizem os teólogos) na Consagração da Missa; nesse momento, Jesus torna-se presente sob as aparências do pão e do vinho. E enquanto essas aparências permanecerem, Jesus continua a estar presente e o sacramento da Sagrada Eucaristia continua a existir nelas. O ato pelo qual se recebe a Sagrada Eucaristia chama-se Sagrada Comunhão. Podemos dizer que a Missa é a “confecção” da Sagrada Eucaristia e que a comunhão é a sua recepção. Entre uma e outra, o sacramento continua a existir (como no sacrário), quer o recebamos, quer não.

Ao tratarmos de aprofundar no conhecimento deste sacramento, não temos melhor maneira de fazê-lo do que começando por onde Jesus começou: por aquele dia na cidade de Cafarnaum em que fez a mais incrível das promessas, a de dar a sua carne e o seu sangue como alimento da nossa alma.

“Os milagres da multiplicação dos pães - quando o Senhor disse a bênção, partiu e distribuiu os pães pelos seus discípulos para alimentar a multidão -, prefiguram a superabundância deste pão único da Sua Eucaristia” (n. 1335).

Na véspera, Jesus tinha lançado os alicerces da sua promessa. Sabendo que ia fazer uma tremenda exigência à fé dos seus ouvintes, preparou-os para ela. Sentado numa ladeira, do outro lado do mar de Tiberíades, tinha pregado a uma grande multidão que o havia seguido até ali, e agora, já ao cair da tarde, prepara-se para despedi-los. Mas, movido de compaixão e como preparação para a sua promessa do dia seguinte, faz o milagre dos pães e dos peixes. Alimenta a multidão - só os homens eram cinco mil - com cinco pães e dois peixes; e, depois de todos se terem saciado, os seus discípulos recolhem doze cestos de sobra. Esse milagre haveria de estar presente no dia seguinte (ou deveria estar) na mente dos que o escutaram.

Tendo despedido os que o tinham seguido, subiu monte acima, a fim de orar em solidão como era seu costume. Mas não era muito fácil separar-se daquela multidão, que queria ver mais milagres e ouvir mais palavras de sabedoria de Jesus de Nazaré: acamparam por ali para passar a noite e viram os discípulos embarcar (sem Jesus) rumo a Cafarnaum, na única barca que havia. Nessa noite, depois de terminar a oração, Jesus atravessou andando as águas tormentosas do lago e juntou-se aos seus discípulos na barca, e assim chegou com eles a Cafarnaum.

Na manhã seguinte, a turba não conseguia encontrar Jesus. Quando chegaram outras barcas de Tiberíades, desistiram de procurá-lo e embarcaram para Cafarnaum. Qual não foi o seu assombro ao encontrarem de novo Jesus, que havia chegado antes deles, sem ter subido à barca que partira na noite anterior! Foi outro portento, outro milagre que Jesus fez para fortalecer a fé daquela gente (e dos seus discípulos), pois ia pô-la à prova pouco depois.

Os discípulos e os que conseguiram entrar aglomeraram-se em seu redor na sinagoga de Cafarnaum. Foi ali e então que Jesus fez a promessa que hoje nos enche de fortaleza e vida: prometeu a sua Carne e o seu Sangue como alimento; prometeu a Sagrada Eucaristia.

Se tinha poder para multiplicar cinco pães e com eles alimentar cinco mil homens, como não havia de tê-lo para alimentar toda a humanidade com um pão celestial feito por Ele?! Se tinha poder para andar sobre as águas como se fosse terra firme, como não havia de tê-lo para ordenar aos elementos do pão e do vinho que lhe emprestassem a sua aparência e para utilizá-la como capa para a sua Pessoa?! Jesus tinha preparado bem os seus ouvintes e, como veremos, eles tinham necessidade disso.

Se você tem um exemplar do Novo Testamento à mão, será muito bom que leia inteiro o capítulo sexto do Evangelho de São João. Só assim poderá captar todo o ambiente, as circunstâncias e o desenrolar dos acontecimentos na sinagoga de Cafarnaum. Vou citar somente as linhas mais pertinentes, que começam no versículo 51 e acabam no 67.

Disse Jesus: Eu sou o pão vivo que desceu do céu. [...] Quem comer deste pão viverá eternamente; e o pão que eu darei é a minha carne para a salvação do mundo. Disputavam, pois, entre si os judeus, dizendo: Como pode este dar-nos a comer a sua carne? Jesus disse-lhes: Em verdade, em verdade vos digo: Se não comerdes a carne do Filho do homem e não beberdes o seu sangue, nela tereis a vida em vós. O que come a minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna, e eu o ressuscitarei no último dia. Porque a minha carne é verdadeiramente comida e o meu sangue verdadeiramente bebida. [...] Este é o pão que desceu do céu. Não é como o pão que comeram os vossos pais e morreram. O que come deste pão viverá eternamente [...]. Muitos, pois, dos seus discípulos, ouvindo isso, disseram: Dura é esta linguagem, quem a pode ouvir? Jesus, conhecendo em si mesmo que os seus discípulos murmuravam por isso, disse-lhes: [...] As palavras que eu vos disse são espírito e vida. Mas há alguns de vós que não crêem [...]. Desde então, muitos dos seus discípulos tornaram atrás e já não andavam com ele.

Este breve extrato do capítulo sexto de São João contém os dois pontos que mais nos interessam agora: os dois pontos que nos dizem, meses antes da Última Ceia, que na Sagrada Eucaristia estarão presentes o verdadeiro Corpo e o verdadeiro Sangue de Jesus. Lutero rejeitou a doutrina da presença verdadeira e substancial de Jesus na Eucaristia, doutrina que havia sido seguida firmemente por todos os cristãos durante mil e quinhentos anos. Lutero aceitava certa espécie de presença de Cristo, ao menos no momento em que se recebesse a comunhão. Mas no terreno adubado por Lutero brotaram outras confissões protestantes que foram recusando mais e mais a crença na presença real. Na maioria das confissões protestantes de hoje, o “serviço da comunhão” não passa de um simples rito comemorativo da morte do Senhor; o pão continua a ser pão e o vinho continua a ser vinho.

Nos seus esforços por eludir a doutrina da presença real, teólogos protestantes procuraram mitigar as palavras de Jesus, afirmando que Ele não pretendia que as tomassem no seu sentido literal, mas apenas espiritual ou simbolicamente. Mas é evidente que não se podem diluir as palavras de Cristo. Sem violentar o seu sentido claro e rotundo. Jesus não poderia ter sido mais enfático: A minha carne é verdadeiramente comida e o meu sangue é verdadeiramente bebida. Não há forma de dizê-lo com mais clareza. No original grego, que é a língua em que São João escreveu o seu Evangelho, a palavra do versículo 55 que traduzimos por “comer” estaria mais próxima do seu sentido original se a traduzíssemos por “mastigar” ou “comer mastigando”.

Tentar explicar as palavras de Jesus como simples modo. De expressar-se levar-nos-ia a outro beco sem salda. Entre os Judeus que eram aqueles a quem Jesus se dirigia, a única ocasião em que a frase “comer a carne de alguém” se utilizava figurativamente era para significar ódio a determinada pessoa ou perseguir alguém com furor. De modo parecido,”beber o sangue de alguém” queria indicar que esse alguém sena castigado com penas severas. Nenhum desses significados - os. únicos que os judeus conheciam - se revela coerente se os aplicarmos às palavras de Jesus.

Outra prova de peso, que confirma que Jesus quis verdadeiramente dizer o que disse - que o seu corpo e o seu sangue estariam realmente presentes na Eucaristia - está em que alguns dos seus discípulos o abandonaram por terem achado a idéia de comê-lo demasiado repulsiva. Não tiveram fé suficiente para compreender que, se Jesus lhes ia dar a sua Carne e o seu Sangue em alimento, o faria de forma a não causar repugnância à natureza humana. Por isso o abandonaram, “e já não andavam com ele”.

“O primeiro anúncio da Eucaristia dividiu os discípulos, tal como o anúncio da Paixão os escandalizou: Estas palavras são insuportáveis! Quem as pode escutar? (Jo 6, 60). A Eucaristia e a Cruz são pedras de tropeço. É o mesmo mistério e continua a ser motivo de divisão. Também vós quereis ir-vos embora? (Jo 6, 67). Esta pergunta do Senhor ecoa através dos tempos, como convite do seu amor a que descubramos que s6 Ele tem palavras de vida eterna (Jo 6, 68 ) e que acolher na fé o dom da sua Eucaristia é acolhê-Lo a Ele mesmo” (n. 1336).

Jesus nunca os teria deixado ir-se embora se essa deserção fosse simples resultado de um mal-entendido. Muitas vezes antes tinha-se dado ao trabalho de esclarecer as suas palavras quando eram mal compreendidas. Por exemplo, quando disse a Nicodemos que era preciso nascer de novo, e este lhe perguntou como é que um adulto podia entrar de novo no ventre de sua mãe (cf. Jo 3, 3 e segs.); pacientemente, Jesus esclareceu-lhe as suas palavras sobre o Batismo. Mas agora, em Cafarnaum, Jesus não esboça o menor gesto para impedir que os seus discípulos o abandonem nem para lhes dizer que o haviam entendido mal. Não pode fazê-lo pela simples razão de que o tinham entendido perfeitamente e por isso o deixavam. O que lhes faltou foi fé, e Jesus, tristemente, teve que resignar-se a vê-los partir.

Tudo isto faz com que a afirmação da doutrina da presença real esteja ineludivelmente contida na promessa de Cristo, porque, se não fosse assim, as suas palavras não teriam sentido, e Jesus não falava por enigmas indecifráveis.

JESUS MANTÉM A SUA PROMESSA

Na sinagoga de Cafarnaum, quase um ano antes da sua morte, Jesus prometeu dar o seu próprio corpo e o seu próprio sangue como alimento para a salvação dos homens. Na Ultima Ceia, nas vésperas da sua crucifixão, cumpriu a sua promessa. Legou à Igreja e a cada um dos seus membros, não terras, casas ou dinheiro, mas um legado como só Deus nos podia dar: o dom da sua própria Pessoa viva.

No Novo Testamento, há quatro relatos da instituição da Eucaristia. São os de Mateus (26, 26-28), Marcos (14, 22-24), Lucas (22, 19-20) e Paulo (1 Cor 11, 23-29). São João, que é quem nos conta a promessa da Eucaristia, não se preocupa de repetir a história da instituição deste sacramento. Foi o último Apóstolo a escrever um Evangelho, e conhecia os outros relatos. Em seu lugar, decide transmitir-nos as belíssimas palavras finais de Jesus aos seus discípulos na Última Ceia.

Eis aqui o relato da instituição da Sagrada Eucaristia segundo nos conta São Paulo: O Senhor Jesus, na noite em que foi entregue, tomou o pão e, dando graças, partiu-o e disse: Tomai e comei; isto é o meu corpo, que será entregue por vós; fazei isto em. memória de mim. Igualmente também, depois de ter ceado, tomou o cálice e disse: Este cálice é o novo testamento no meu sangue; fazei isto em memória de mim todas as vezes que o beberdes.

As suas palavras não podiam ser mais claras. “isto” queria dizer “esta substância que tenho em minhas mãos e que agora que começo a falar é pão, e ao terminar não será já pão, mas o meu próprio corpo”. “Este cálice” queria dizer “este cálice que agora que começo a falar contém vinho, e ao terminar não será mais vinho, mas o meu próprio sangue”.

“Isto é o meu corpo” e “este cálice… é o meu sangue”. Os Apóstolos tomaram as palavras de Jesus literalmente. Aceitaram como um fato (e que ato de fé, essa aceitação!) que a substância que ainda parecia pão era agora o Corpo de Jesus; e que a substância que continuava a parecer vinho era agora o Sangue de Cristo.

Essa foi a doutrina que os Apóstolos pregaram à Igreja nascente. Essa foi a crença universal dos cristãos durante mil anos. No século XI, um herege chamado Berengário pôs em dúvida a verdade da presença real, e ensinava que Jesus tinha falado apenas em sentido figurado e, assim, o pão e o vinho consagrados não eram realmente o seu corpo e o seu sangue. A heresia de Berengário foi condenada por três concílios, e Berengário retratou-se do seu erro e voltou ao redil. A doutrina da presença real permaneceu indiscutida por outros quinhentos anos.

No século XVI, chegaram Lutero e a reforma protestante. O próprio Lutero não negou inteiramente a presença real de Jesus na Eucaristia. Admitia que as palavras de Jesus eram demasiado terminantes para que fosse possível explicá-las de outro modo. Mas Lutero queria abolir a Missa, bem como a adoração de Jesus presente no altar. Por isso, tratou de resolver o seu dilema ensinando que, embora o pão continuasse a ser pão e o vinho, vinho, Jesus se faz presente juntamente com as substâncias do pão e do vinho; mas sustentava que Jesus está presente apenas no momento em que se recebe o pão e o vinho; não antes nem depois.

Outros reformadores protestantes foram mais longe que Lutero e acabaram por negar completamente a presença real. Tanto eles como os teólogos protestantes que lhes sucederam sustentaram que, quando Jesus disse: ‘Isto é o meu corpo” e “Isto é o meu sangue”, lançou mão de um recurso de linguagem, e que o que queria dizer era: ‘Isto representa o meu corpo” ou “Isto é um símbolo do meu sangue”. Na sua tentativa de alterar as palavras de Cristo, tiveram que valer-se de todo o tipo de interpretações inverossímeis, mas deixaram sem resposta as razões realmente sólidas que provam que Jesus disse o que queria dizer e que quis dizer o que disse.

A primeira delas reside na solenidade da ocasião: a noite anterior à sua morte. Nela, Jesus faz o seu testamento, deixa-nos a sua última vontade. Um testamento não é um documento apropriado para empregar uma linguagem figurada; mesmo nas circunstâncias mais favoráveis, os tabeliães têm, às vezes, dificuldade em interpretar as intenções do testador, quanto mais se este emprega uma linguagem simbólica.

Mais ainda: sendo Deus, Jesus sabia que, em conseqüência das palavras que ia pronunciar naquela noite, milhões e milhões de pessoas lhe prestariam culto sob a aparência de pão. Se não tivesse querido estar realmente sob essas aparências, os adoradores prestariam culto a um simples pedaço de pão e incorreriam no pecado de idolatria, e isto, certamente, não é coisa a que o próprio Deus quisesse induzir-nos, preparando o cenário e utilizando obscuros modos de falar.

Que os Apóstolos tomaram literalmente as palavras de Jesus é evidente, pois os cristãos creram desde os primórdios na presença real de Jesus na Eucaristia. De ninguém mais, além dos Apóstolos, poderiam ter obtido essa crença. E quem melhor do que estes nos poderia dizer o que Cristo quis dizer? Os Apóstolos estavam lá; podiam ter perguntado a Jesus - e certamente o fizeram - todas as questões que lhes ocorressem sobre o significado das palavras que acabavam de ouvir. Às vezes, tendemos a esquecer que os Evangelhos registram apenas uma pequena parte do que se passou entre Jesus e os Apóstolos. Compilar três anos de diálogo, de perguntas e respostas, de ensinamentos, requereria um montão de livros.

Quando, na noite da Quinta-feira Santa, Jesus pronunciou as palavras: ‘1sto é o meu corpo” sobre o pão, e “Isto é o meu.sangue” sobre o vinho, os Apóstolos tomaram essas palavras ao pé da letra, como se prova claramente pela sua conduta posterior. Se Jesus lançou mão de uma metáfora, se o que na realidade quis dizer era: “Este pão é como que um símbolo do meu corpo e este vinho significa o meu sangue; portanto, cada vez que os meus seguidores se reunirem e participarem de um pão e um vinho como estes, honrar-me-ão e representarão a minha morte”; se foi isto o que Jesus quis dizer, então todos os Apóstolos o entenderam mal. E, através da sua interpretação errônea, toda a cristandade - até que chegaram os protestantes – passou a adorar um pedaço de pão como se fosse Deus.

É totalmente insensato pensar que Jesus pudesse permitir que os seus discípulos caíssem num erro tão grave. Em outras ocasiões, em muitíssimas outras ocasiões, e tratando-se de matérias muito menos importantes que esta, Jesus corrige os seus Apóstolos quando o interpretam mal. Para citar um só exemplo, no Evangelho de São Mateus (16, 6-12), Jesus diz aos seus Apóstolos que estejam prevenidos contra o fermento dos fariseus e dos saduceus. Eles pensam que lhes está falando de pão real, e cochicham entre si que não têm pão. Pacientemente, Jesus, esclarece-lhes que se refere aos ensinamentos dos fariseus e saduceus, não ao pão que se come. Em outras ocasiões, quando Jesus se serve de metáforas, o próprio escritor sagrado nos esclarece o respectivo significado, como na ocasião em que Jesus disse: Destruí este templo e eu o reedificarei em três dias, e João explica imediatamente que Ele se referia ao templo do seu corpo (cf. Jo 2, 19-22). Encontramos incidentes parecidos em grande abundância nos Evangelhos, e, no entanto, querem agora fazer-nos crer que, no momento solene da Última Ceia, Jesus utilizou modos de dizer novos e estranhos, sem se darem ao trabalho de explicar qual era o seu significado.

Porque são modos de dizer novos e estranhos. Nem o pão é um símbolo natural do corpo humano, nem o vinho um símbolo natural do sangue. Se alguém cortasse uma fatia de pão e a oferecesse a outro comensal, dizendo-lhe: “Isto é o meu corpo”, este pensaria logo que estava diante de um gozador ou de um louco varrido. E é blasfemo tratar de aplicar a Jesus qualquer das duas hipóteses.

Como recurso literário, só é válido lançar mão de um modo de dizer quando o seu significado é claro. Esta clareza pode resultar da natureza da afirmação, como quando mostro uma fotografia e digo: “É a minha mãe”, ou aponto um menino irrequieto e digo: “É uma máquina de movimento contínuo”, ou digo de um cavalo veloz: “É um raio”; ou quando me ponho a explicar o sentido da metáfora; por exemplo, quando coloco uns fósforos sobre a mesa e digo: “Esta é a minha casa, e aqui está a sala de jantar”. Mas, nem pela natureza da afirmação, nem por explicações dadas, as palavras “Isto é o meu corpo” fazem sentido como metáfora.

A idéia de que Jesus teria falado em metáforas na Última Ceia torna-se ainda mais incrível se tivermos em conta que se dirigia a homens que, na sua maioria, eram uns pobres e incultos pescadores. Não tinham sido educados nas sutilezas da retórica. Mais ainda, antes de o Espírito Santo ter descido sobre eles, assombram-nos pelo seu lento entendimento das coisas. Temos um exemplo na passagem da ressurreição de Lázaro. Lemos em São João (11, 11-14) que, quando Jesus disse: O nosso amigo Lázaro dorme, mas vou despertá-lo, os discípulos replicaram: Senhor, se dorme, curar-se-á. Então Jesus disse-lhes claramente: Lázaro morreu. Eram mentalidades difíceis para lhes falar em metáforas!

Outra indicação de que Jesus não falava em metáforas ao instituir a Eucaristia, achamo-la nas palavras com que São Paulo conclui o seu relato da Ultima Ceia (1 Cor 11, 27-30): Portanto, todo aquele que comer este pão ou beber o cálice do Senhor indignamente será réu do corpo e do sangue do Senhor. Examine-se, pois, a si mesmo o homem, e assim coma deste pão e beba do cálice, porque aquele que o come e bebe indignamente, come e bebe para si a condenação, não distinguindo o corpo do Senhor. É duro dizer que um homem se torna réu do Corpo e do Sangue do Senhor, que come e bebe a sua própria condenação, se o pão não é mais do que pão, mesmo que. seja pão bento, e o vinho não é senão vinho, mesmo que seja um vinho sobre o qual se tenham pronunciado umas orações.

Nós, certamente, não necessitamos de provas como as que aqui se esquematizaram para crer’ na presença real de Jesus Cristo na Sagrada Eucaristia. Cremos nessa verdade não por provas racionais, mas, primordialmente, porque a Igreja de Cristo, que não pode errar em matérias de fé e moral, assim no-lo diz. Mas sempre é útil conhecer as dificuldades com que tropeçam os que procuram interpretações pessoais nas palavras de Nosso Senhor.

Nós preferimos seguir a regra da sensatez que diz que, para conhecer o significado de uma coisa que se disse, não há melhor caminho do que perguntar a quem a ouviu ou que estava lá. Os Apóstolos estavam lá; os primeiros cristãos, os que escutaram a pregação dos Apóstolos, em certo sentido estavam lá. Mesmo nós, que herdamos uma tradição ininterrupta, em certo sentido estávamos lá. Independentemente de ser um dogma definido pela Igreja, preferimos crer nos ensinamentos dos Apóstolos e na crença unânime dos cristãos durante mil e quinhentos anos, em vez de prestar ouvidos aos ensinamentos desencontrados dos reformadores protestantes. Homens como Lutero, Karlstadt, Zwingli ou Calvino exigem demasiado quando nos pedem para crer que durante quinze séculos os cristãos permaneceram no erro e que, de repente, eles, os reformadores protestantes, encontraram a resposta certa.

JÁ NÃO É PÃO

Que aconteceu exatamente quando Jesus disse na Última Ceia (e os sacerdotes esta manhã na missa): “Isto é o meu corpo” sobre o pão, e ‘Este é o cálice do meu sangue” sobre o vinho? Cremos que a substância do pão deixou de existir completa e totalmente, e que a substância do próprio Corpo de Cristo substituiu a substância do pão, que ficou aniquilada. Cremos também que Jesus, pelo seu poder onipotente como Deus, preservou as aparências do pão e do vinho, apesar de as respectivas substâncias terem desaparecido.

Por “aparências” de pão e de vinho entendemos todas as formas externas e acidentais que de um modo ou de outro podem ser percebidas pelos sentidos da vista, do tato, do paladar, do ouvido e do olfato. A Sagrada Eucaristia ainda parece pão e vinho, ainda tem o sabor do pão e do vinho e cheira a pão e vinho, ainda é sensível ao tato como pão e vinho, e, se a partíssemos ou derramássemos, espalhar-se-ia como o pão e o vinho. Mesmo que fizéssemos um exame microscópico, eletrônico ou radiológico, só poderíamos perceber nela as qualidades do pão e do vinho. Com efeito, a observação humana só pode obter a aparência externa de qualquer coisa. A sua configuração, a sua reação a determinadas circunstâncias, as leis físicas a que parece obedecer, são as únicas questões que a ciência pode investigar. Mas a substância de uma coisa, o que lhe está subjacente, a substância como substância, está fora do alcance dos sentidos e dos instrumentos humanos.

Hoje em dia, a ciência da física nuclear teoriza que toda a matéria é uma forma de energia; que toda a matéria se compõe de partículas em movimento, carregadas eletricamente. A diferença entre um pedaço de madeira e um pedaço de ferro é simplesmente a diferença entre o número, a velocidade e a direção das partículas carregadas eletricamente que compõem os dois materiais. Mas, mesmo que um físico consiga fotografar com uma câmara eletrônica algumas dessas partículas, ainda continuará a manejar aparências. A substância como substância, aquilo que faz uma coisa ser o que é e não outra coisa, continue a estar fora do alcance dos cientistas.

Todo este tema da relação da substância (o que uma coisa é) com os acidentes (as qualidades perceptíveis de uma coisa: é uma questão filosófica, e não podemos estender-nos aqui na sua análise. Basta-nos saber, como sabemos, que, pelas palavra da Consagração, a substância do corpo de Cristo substitui a substância do vinho, ao mesmo tempo que permanecem as aparências do pão e do vinho.

Evidentemente, é um milagre; um milagre contínuo, realizado centenas de milhares de vezes por dia pelo poder infinito de Deus. A bem dizer, é um duplo milagre: é o milagre da transformação do pão e do vinho em Jesus Cristo; e o milagre adicional pelo qual Deus mantém as aparências do pão e de

vinho ainda que a substância subjacente tenha desaparecido, como se o rosto de uma pessoa permanecesse num espelho depois de a pessoa se ter retirado.

A mudança operada pelas palavras da consagração é de um tipo especial, e a Igreja teve de cunhar um termo especial para a designar: transubstanciação, que, literalmente, significa a passagem de uma substância para outra; neste caso, é uma singular espécie de mudança.

“O Concílio de Trento resume a fé católica declarando: «Porque Cristo, nosso Redentor, disse que o que Ele oferecia sob a espécie do pão era verdadeiramente o seu Corpo, sempre na Igreja se teve esta convicção que o sagrado Concílio de novo declara: pela consagração do pão e do vinho opera-se a conversão de toda a substância do pão na substância do Corpo de Cristo nosso Senhor, e de toda a substância do vinho na substância do seu Sangue; a esta mudança, a Igreja católica chama-lhe, com justeza e exatidão, transubstanciação» (DS 1642)” (n. 1376).

Na vida ordinária, estamos acostumados a muitas espécies de mudanças. Às vezes, são mudanças apenas aparentes, externas, como quando a água congela e se toma sólida, ou um pedaço de barro é modelado e se toma um vaso. Vemos também mudanças que afetam tanto a substância como os acidentes, como quando o vinho se transforma em vinagre ou o carvão sob pressão se toma um diamante. Tem havido mudanças milagrosas deste gênero, como a que Jesus operou em Caná, mudando a água em vinho.

No entanto, em lugar nenhum da ordem natural e, pelo que conhecemos, também na ordem sobrenatural, se produzem mudanças semelhantes à que se opera no pão e no vinho pelas palavras da consagração: uma mudança de substância sem mudança de aparências. Por esta razão, a palavra “transubstanciação” aplica-se exclusivamente a esse milagre quotidiano.

Ainda que pelas palavras da consagração o corpo de Jesus se torne presente sob as aparências do pão, e o seu sangue sob as aparências do vinho, sabemos que a Pessoa de Jesus ressuscitado dentre os mortos, não pode ser dividida. Onde está o seu corpo, deve estar também o seu sangue; e onde estão o seu corpo e o seu sangue, devem estar também a sua alma e a sua natureza divina, a que estão unidos o seu corpo e o seu sangue. Do mesmo modo, onde está o sangue de Jesus, deve estar Jesus inteiro. Em conseqüência, pelas palavras “Isto é o meu corpo”, toma-se presente não só o corpo de Jesus, como também – pelo que os teólogos chamam “concomitância”, quer dizer, por força da sua unidade de Pessoa - o seu sangue, alma e divindade. O mesmo acontece na consagração do vinho.

É por esta razão que não é necessário receber a Comunhão sob as duas espécies de pão e vinho, embora se possa fazê-la nos casos previstos pelas normas litúrgicas. Se a recebemos sob qualquer das duas, seja pão, seja vinho, recebemos Jesus todo completo e inteiro.

Jesus Cristo, todo e inteiro, está presente na Sagrada Eucaristia sob as aparências do pão e do vinho. Está presente simultaneamente em cada uma das hóstias consagradas de cada altar de todo o mundo e em cada cálice consagrado onde quer que se celebre a Santa Missa. Mais ainda, Jesus todo e inteiro está presente em cada partícula consagrada e em cada gota de vinho consagrado. Se a sagrada hóstia se divide – como o sacerdote faz durante a missa –. Jesus está totalmente presente em cada uma das partes. Se caísse ao chão uma partícula da hóstia consagrada ou se derramasse uma gota do cálice, Jesus estaria presente todo e inteiro nessa partícula e nessa gota.

E por isso que os panos de altar têm que ser lavados com a máxima reverência, porque pode· haver aderida a eles uma partícula das Sagradas Espécies. Estes panos de altar compreendem o corporal, sobre o qual se coloca a patena com a hóstia e o cálice consagrados durante a missa; a pala, o pano quadrado que cobre o cálice durante a missa; e o sangüíneo, o pano com que o sacerdote enxuga os lábios depois de consumir o precioso Sangue e seca os dedos e o cálice depois de lavar o cálice com vinho e água, ou só com água. Jesus, evidentemente, não deixa o seu lugar no céu, “à direita do Pai”, para se tomar presente na Sagrada Eucaristia. Permanece no céu e está no altar. Quem se faz presente sob as aparências do pão e do vinho é o corpo glorificado de Jesus, o seu corpo tal como está no céu.

A presença de Jesus na Eucaristia - sob dimensões tão pequenas e em tantos lugares ao mesmo tempo - parece suscitar duas aparentes dificuldades: Como pode um corpo humano estar presente num espaço tão pequeno? Como pode um corpo humano estar em vários lugares ao mesmo tempo? Estas dificuldades, é claro, são apenas aparentes. Deus assim o fez; portanto, pode ser feito. Deve-se recordar que Deus é o autor da natureza, o amo e o senhor da Criação. As leis físicas do universo foram estabelecidas por Ele, e Ele pode suspender a sua ação se assim o quiser, sem que o seu poder infinito tenha que fazer nenhum esforço.

É verdade que, segundo a experiência humana, um corpo deve ter determinada “extensão”, isto é, deve ocupar determinado espaço. Segundo a nossa experiência, um corpo deve estar num só lugar de cada vez. A multilocação (estar em vários lugares ao mesmo tempo) é algo desconhecido para nós. Pode-se, pois, afirmar que um corpo sem extensão no espaço, ou que ocupe vários. lugares ao mesmo tempo, é um impossível físico; isto é, impossível para as leis físicas. Mas esses fenômenos não são impossíveis metafisicamente; quer dizer, não há contradição intrínseca na idéia de um corpo sem extensão ou na idéia da multilocação.Uma contradição intrínseca tomá-los-ia absolutamente impossíveis; estaria neste caso, por exemplo, a idéia de um círculo quadrado, que é uma contradição nos seus próprios termos.

Talvez isto nos arraste excessivamente para o campo da filosofia. Mas os pontos que nos interessa deixar claros são: primeiro, que Jesus não está presente na Eucaristia em miniatura. Está ali na plenitude da sua Pessoa glorificada, de uma maneira espiritualizada, sem extensão nem espaço. Não tem altura, largura ou espessura.

O segundo ponto é que Jesus não se multiplica: não passa a haver muitos Jesus; também não se divide entre as diferentes hóstias. Há um só Jesus, completo e indiviso. A sua multilocação não é resultado de multiplicações e ou divisões,mas da suspensão da lei do espaço relativamente ao seu corpo sagrado. É como se estivesse num lugar, e todas as partes do espaço fossem atraídas para Ele. É fácil ver a razão pela qual a Eucaristia é chamada – e é – o sacramento da unidade. Quando comungamos – nós e os nossos companheiros de comunhão do mundo inteiro –, estamos onde Ele está. O espaço dissolveu-se para nós, e todos Juntos somos um em Cristo. Quanto tempo permanece Jesus na Sagrada Eucaristia? O tempo em que permanecem as espécies do pão e do vinho. Se um fogo repentino destruísse as hóstias consagradas do sacrário, Jesus não se queimaria. As aparências do pão e do vinho transformar-se-iam em cinzas, mas Jesus já não estaria lá. Quando, depois de comungarmos, o nosso processo digestivo destrói as aparências do pão, Jesus já não permanece corporalmente em nós; só fica a sua graça.

O PÃO, O VINHO E O SACERDOTE

Na Última Ceia, Jesus transformou o pão e o vinho no seu próprio corpo e sangue. Ao mesmo tempo, mandou os seus Apóstolos repetirem a mesma ação sagrada no futuro. “Fazei isto em memória de mim”, foi o encargo solene que lhes deu. Evidentemente, Jesus não manda coisas impossíveis e, portanto, juntamente com esse mandato conferiu-lhes o poder necessário para transformarem o pão e o vinho no seu corpo e sangue. Com as palavras ‘Fazei isto em memória de mim”, Jesus converteu os seus Apóstolos em sacerdotes.

O poder de transformar o pão e o vinho no corpo e no sangue do Salvador foi transmitido pelos Apóstolos aos homens que deveriam perpetuar o seu trabalho e partilhar da sua missão quando eles se fossem embora. E estes, por sua vez, confeririam esse poder sacerdotal a outros. E assim, de geração em geração, durante estes dois mil anos, o poder do sacerdócio foi-se transmitindo por meio do sacramento da Ordem Sagrada. De bispo em bispo, chegou até os sacerdotes de hoje.

A ação litúrgica pela qual o pão e o vinho transformam-se no corpo e no sangue do Senhor é a Santa Missa. A palavra “Missa” deriva do latim missa, que significa “despedida”. Por força de um costume da primitiva cristandade, este vocábulo passou a ser o nome da ação pela qual Jesus se torna presente na Eucaristia. A exceção dos batizados, ninguém estava autorizado a assistir ao Sacrifício eucarístico. Os futuros cristãos (chamados catecúmenos) tinham que deixar o recinto ao terminar a leitura do Evangelho e o sermão. Tanto a estes após o sermão, como ao resto da assembléia ao terminar a ação sagrada, o sacerdote dirigia a advertência oficial: “Ide, é a despedida”, em latim Ite missa est. Pelo uso, a palavra “missa” passou a designar o Sacrifício eucarístico completo.

Teremos ocasião de estudar mais adiante a Missa como sacrifício. Aqui queremos apenas indicar que é nela que o pão e o vinho são transformados no corpo e no sangue de Cristo, mudança que tem lugar quando o sacerdote, fazendo-se instrumento livre e voluntário de Cristo, pronuncia sobre essas espécies as palavras do Senhor “Isto é o meu Corpo” e “Este é o cálice do meu Sangue”. De pé no altar, como representante visível de Jesus, o sacerdote humano “aciona” o poder infinito de Cristo, e Cristo, pela força do Espírito Santo, torna-se presente no mesmo instante sob as aparências do pão e do vinho.

Nessas palavras – que são chamadas palavras da Consagração – está a essência da Missa, e só elas, e não as demais orações e cerimônias (à exceção da comunhão do sacerdote, que completa a missa), são a Missa. Isto requer, naturalmente, que o sacerdote tenha a intenção de consagrar o pão e o vinho. Se, por exemplo, almoçando a uma mesa em que houvesse pão e vinho, um sacerdote se pusesse a narrar a Ultima Ceia aos demais comensais, e ao fazê-lo pronunciasse as palavras da consagração, é evidente que não haveria consagração, porque o sacerdote não teria essa intenção.

Só o pão feito de trigo se pode converter no corpo de Cristo, visto Jesus ter utilizado pão de trigo na Última Ceia. Se as palavras da consagração fossem pronunciadas sobre pão feito de outra espécie de grão, como aveia, centeio ou milho, por exemplo, não haveria transubstanciação.

Qualquer pão de farinha de trigo serve. No entanto, a Igreja de rito latino requer que só se utilize pão ázimo, quer dizer, sem fermento. Esta antiqüíssima lei da Igreja de rito latino baseia-se em que, com toda a probabilidade, Jesus utilizou pão ázimo visto ter celebrado a Última Ceia “no primeiro dia dos ázimo”, um período de sete dias em que os judeus só comiam pão sem fermento.

Não obstante, a Igreja Católica de rito grego, como a maioria das igrejas orientais, usa pão com fermento para a missa, e é tão missa como a nossa. Mas, quer tenha fermento quer não, o pão deve ser de trigo.

Como Jesus utilizou vinho de uva na Última Ceia, só se deve usar vinho de uva para a missa. Se as palavras da consagração se pronunciassem sobre vinho feito de outra fruta (como vinho de cerejas ou de ameixas), não produziriam efeito. O corpo e o sangue do Senhor não se fariam presentes. Só o sumo puro fermentado de uva pode ser utilizado na missa.

Uma vez que o pão e o vinho se tenham transformado no corpo e no sangue de Cristo, o nosso Salvador permanece presente enquanto as aparências do pão e do vinho se conservarem intactas. Por outras palavras, Jesus está presente na Sagrada Eucaristia não somente durante a missa, mas enquanto as hóstias consagradas na missa continuarem a manter as aparências de pão. Isto quer dizer que devemos à Eucaristia a adoração que se deve a Deus, já que a Sagrada Eucaristia contém o próprio Filho de Deus. Adoramos a Eucaristia com culto de latria, que é o culto reservado exclusivamente a Deus.

Na Igreja primitiva, a adoração a Jesus sacramentado era praticada apenas dentro da missa. A devoção ao Santíssimo Sacramento fora dela – tão familiar nos nossos dias – desenvolveu-se lenta e gradualmente. Parece que os cristãos demoraram bastante tempo a perceber plenamente o tesouro que tinham na Eucaristia. Só no século XII é que nasceu o costume de reservar a Sagrada Eucaristia para a adoração dos cristãos fora da missa. A partir daí, a devoção ao Santíssimo Sacramento desenvolveu-se rapidamente.

“A sagrada Reserva (no Sacrário) era a princípio destinada a guardar, de maneira digna, a Eucaristia, para poder ser levada aos doentes e ausentes, fora da missa. Pelo aprofundamento da fé na presença real de Cristo na sua Eucaristia, a Igreja tomou consciência do sentido da adoração silenciosa do Senhor, presente sob as espécies eucarísticas. Por isso, o sacrário deve ser colocado em lugar particularmente digno da igreja; deve ser construído de tal modo que sublinhe e manifeste a verdade da presença real de Cristo no Santíssimo Sacramento” (n. 1379; cf. também os ns.1378 e 1380-1).

Hoje, em cada igreja católica, há um tabernáculo, um saerário. Esse tabernáculo (do latim tabemaculum, que significa “tenda”) é uma caixa coberta normalmente com um véu, que se

identifica por uma luz que arde na lamparina do sacrário. Dentro dela, Jesus está presente, tanto na hóstia grande que se usa na bênção solene, e que se guarda numa caixa de metal, como nas hóstias pequenas, guardadas numa copa – o cibório –, que é utilizada para distribuir a comunhão aos fiéis.

A partir do momento em que se começou a estender a devoção à Sagrada Eucaristia fora da missa, três práticas devotas se tomaram universais: a festa e procissão do Corpus Christi, a exposição e bênção com o Santíssimo Sacramento e a devoção das Quarenta Horas.

A festa do Corpus Christi, do Corpo de Cristo, originou-se na diocese de Liege, na Bélgica, no ano de 1246, e dezoito anos mais tarde o Papa Urbano IV estendeu-a a toda a Igreja. O Corpus Christi é celebrado sempre na quinta-feira seguinte ao domingo da Santíssima Trindade. Parte da celebração consiste na procissão do Corpus, que pode ser nesse dia ou no domingo seguinte, se houver razões para isso. Nessa procissão, a Sagrada Eucaristia é levada na chamada custódia ou ostensóno, que significa literalmente “caixa para mostrar”. O ostensório é uma caixa circular de ouro, prata ou metal, montada sobre um suporte. Nas procissões e nas bênçãos solenes, a lúnula que contem a Sagrada Hóstia é inserida no ostensório, para que todos os participantes a possam ver. O rito eucarístico a que chamamos bênção com o Santíssimo Sacramento foi introduzido gradualmente a partir da instituição da festa do Corpus Christi. Tomou-se costume expor o Santíssimo Sacramento para adoração dos fiéis, e logo houve um desenvolvimento adicional desse costume, concluindo-se o ato com a bênção dos assistentes, que o sacerdote dá com o Santíssimo. O rito da bênção, tal como hoje o conhecemos, remonta ao éculo XIV. Consiste num breve período de exposição e adoração, em que se medita a Sagrada Escritura, se cantam hinos, se dizem orações, se adora e reza em silêncio, terminando com a bênção que o sacerdote dá com o ostensório ou o cibório. E a bênção do próprio Jesus na Sagrada Eucaristia.

A devoção das Quarentas Horas foi iniciada em Milão, no século XVI. Originariamente, consistia em 40 horas ininterruptas de adoração ao Santíssimo Sacramento exposto, em comemoração das quarenta horas em que o corpo de Jesus permaneceu no sepulcro. O bispo, se o julgar oportuno, pode fixar a cada paróquia e comunidade religiosa certas datas para que cada semana, em algum lugar da diocese (a não ser que esta seja muito pequena), se assegure a prática dessa devoção e assim se ofereça a Jesus sacramentado uma adoração perpétua.

[Trecho do livro A fé explicada, Leo J. Trese, p. 298-316]

Pergunta Na minha cidade está havendo uma proliferação enorme de seitas protestantes. Seus adeptos abordam muitas vezes os católicos a fim de criticar nossa Religião dizendo coisas estranhas, como por exemplo, que só Jesus Cristo salva, que Ele não precisa de medianeiros para ajudá-Lo; que Nossa Senhora é adorada pelos católicos, etc. Como muitos católicos não têm boa formação, ficam indecisos e acabam dando ouvidos a esses falsos pregadores. O Sr. poderia dar uma orientação sobre isso?

Resposta É realmente de cortar o coração ver o que está ocorrendo em tantos lugares. Infelizmente esse é um fenômeno que vai acontecendo no Brasil inteiro, com seitas pululando por toda parte, tanto nas grandes como nas pequenas cidades, deixando aflitos os verdadeiros católicos.

Cônego José Luiz Villac

Creio que não estaríamos enfrentando os problemas acima descritos se a Santa Igreja não estivesse em meio à turbulência que atinge a humanidade inteira, nessa crise profunda por que está passando.

Mas sabemos e professamos que “as portas do inferno não prevalecerão contra Ela”! Sabemos também que a sociedade civil, separada da única e verdadeira Igreja, torna-se um corpo sem alma, um cadáver fadado à decomposição. A Igreja de Nosso Senhor Jesus Cristo, por sua Sagrada Hierarquia e seus ministros, é “o sal da terra e a luz do mundo”, única – porque divina – capaz de retirar a humanidade do caos em que se encontra.

“A fumaça de satanás dentro da Igreja”

O Papa Paulo VI afirmou ter a sensação de que a fumaça de satanás havia penetrado na Igreja 1, na qual, segundo o mesmo Pontífice, “alguns praticam a autocrítica, dir-se-ia até a autodemolição” 2. Em outras palavras, a turbulência a que nos referimos, o terremoto atinge a própria barca de Pedro. “Fumaça de satanás”, “autodemolição”!, alerta Paulo VI.

Face a essa situação, ficam os bons sacerdotes obrigados a dar assistência a uma grande quantidade de povo e não dão conta de tudo. Além disso — é com muita dor que o digo — infelizmente também existem padres que, envolvidos pela voragem do mundo moderno, dão escândalos, quer pregando quase unicamente a revolução social, quer violando seus sagrados votos e coonestando o desenfreado permissivismo de nossos dias no campo dos costumes. Com isso estes fiéis se sentem órfãos, escandalizados pelo que vêem. “Fumaça de satanás”… “autodemolição”…

Sem uma Fé firme, que os ajude a distinguir a parte humana da Igreja, daquilo que é instituição divina, os fiéis começam a dar ouvidos aos lobos com pele de ovelha, que apresentam soluções falaciosas, que não valem nada, mas que iludem, seduzem e desviam as almas da verdadeira Igreja.

Daí essa proliferação de seitas protestantes e orientais — às centenas! — que em outras épocas jamais teriam a audiência dos católicos no Brasil. Pois estava impressa na alma católica a verdade de Fé divina de que “fora da Igreja para ninguém pode haver salvação” (Denzinger – Umberg, 430). Tal verdade era também realçada nos cursos de Teologia nos Seminários, e constantemente pregada nos púlpitos.

Os crentes não têm autoridade alguma

O que dizer a respeito desses protestantes?

Como acreditar em homens que, embora tendo nos lábios citações da Bíblia, interpretam-na a seu bel-prazer, baseados num livre exame arbitrário e gratuito, desconhecendo e negando o único e autêntico Magistério, instituído por Nosso Senhor Jesus Cristo e confiado a São Pedro e aos Apóstolos para a genuína interpretação das Sagradas Escrituras?

Ao afirmarem que só Nosso Senhor Jesus Cristo salva e que é o único Medianeiro, os protestantes repetem um ensinamento da Igreja, mas que não tem o caráter frio, exclusivista e distorcido que eles comunicam a essa verdade.

Ele é o Medianeiro único no sentido de que, sem Ele, não teria havido a Redenção, uma vez que só um Homem-Deus poderia reparar à altura o pecado cometido contra o próprio Deus por nosso pai comum, Adão.

Mas isso não quer dizer que, junto a Ele, também não existam outros medianeiros. E sobretudo a Medianeira por excelência, que é sua Mãe Santíssima, obra-prima da criação na qual Deus, depois da Humanidade Santíssima do Divino Filho, colocou todas as suas complacências.

Os protestantes não percebem que, negando a mediação de Nossa Senhora e dos Santos, eles estão negando a própria ordem natural criada por Deus, que é esplendidamente escalonada, dando mais a uns que a outros, para que todos os reinos do universo refletissem a indescritível policromia de suas perfeições. De sorte que os que têm mais, ou sejam mais perfeitos, sirvam não só de sustentáculos aos que têm menos, mas também de “medianeiros” junto aos superiores de ambos.

Esses mesmos protestantes, quando se trata, não de matéria de Fé, mas digamos, de negócios, esquecem-se de suas concepções frias e hirtas, e vão atrás de “medianeiros”. Por exemplo, são capazes de dizer: “Vou conversar com fulano, para ele ME CONSEGUIR um emprego na firma tal. Vou pedir para ele INTERCEDER junto ao diretor, que é amigo dele”. O que é isso, senão uma relação de mediação? É a ordem natural! É a Sabedoria e Providência de Deus!

Por que então não vale essa regra para a vida sobrenatural? Vê-se que os hereges caem na maior contradição e não vêem a realidade que transparece com tamanha evidência. Quando não são subjugadas, as paixões cegam e levam à obstinação.

Como explicar o ódio dos protestantes a Nossa Senhora?

Exemplo marcante de tal ódio foi a fúria com que um desses hereges se lançou contra uma imagem de Nossa Senhora Aparecida, Padroeira do Brasil, diante das câmaras de televisão, por ocasião de sua festividade, em 12 de outubro de 1995. Fato este comentado por Catolicismo em sua edição de janeiro de 1996.

Qualquer filho vendo uma outra pessoa odiar sua própria mãe, se acenderia em santa cólera. Então, como esperar agradar a Nosso Senhor Jesus Cristo, votando desprezo e ódio a Nossa Senhora, sua verdadeira e excelsa Mãe? Não vêem que o amor e a veneração a um não excluem o amor e a veneração ao outro?

Só há uma diferença: tal amor e veneração, quando se trata do Homem-Deus, chama-se adoração. É o culto de latria. Quando se trata de Nossa Senhora, denomina-se hiperdulia, que é um grau abaixo. E, quando se trata de santos, intitula-se culto de dulia.

Nosso Senhor Jesus Cristo, o Divino Verbo Encarnado, que mandou “honrar pai e mae” no 4º Mandamento, veria com bons olhos quem desprezasse Nossa Senhora, sua excelsa Mae, que foi Virgem antes, durante e depois do parto?

Na concepção protestante, tudo está torto, errado. Tudo é frio, sem alma, sem vida. Pregam a letra — quando pregam! — do Evangelho, mas perderam o espírito deste. E “a letra mata, mas o espírito vivifica”!

[extraído de www.catolicismo.com.br]

Os reformadores diziam ter uma missão divina.

Ora, ou os reformadores tinham uma missão divina mediata ou imediata.

Missão mediata é aquela recebida de outrem que já a possui, sendo, portanto ordinária. Imediata é a missão recebida diretamente de Deus, sendo dessa forma extraordinária.

Se os reformadores tivessem uma missão mediata, ou a teriam recebido da Igreja, ou a teriam recebido de outrem [alguns diziam que do povo].

Pela Bíblia, vemos que o povo não tem poder para dar missão a ninguém, portanto essa hipótese está descartada. Então, se fosse mediata a missão dos reformadores, eles teriam que tê-la recebido da Igreja.

Ora, ou a Igreja estava certa ou estava errada: os reformadores diziam que a Igreja estava errada, e então não poderiam ter recebido uma missão divina de tal instituição; mas se a Igreja estava certa, então os reformadores são hereges, pois dela se separaram.

Logo, a missão dos reformadores não podia ser mediata.

Vejamos então se a missão dos reformadores podia ser imediata.

Ora, a missão é imediata se recebida diretamente de Deus.

Assim, Moisés recebeu uma missão imediata na sarça ardente, a de libertar seu povo do cativeiro egípcio. Cristo também recebeu uma missão imediata, e sendo o próprio Deus, a recebeu do Pai.

O que é necessário para provar a legitimidade de tal missão?

Milagres e profecias.

Moisés fez milagres e profetizou. Cristo, mesmo sendo Deus, também os fez para provar que era verdadeira sua missão. E a Igreja, Corpo Místico de Cristo, durante toda sua história tem sido acompanhada de milagres e de profecias.

E os pseudo-reformadores do século XVI?

Nada. Nem milagres, muito menos profecias.

Logo, a missão dos reformadores tampouco pode ser imediata.

Se a missão protestante não é nem mediata nem imediata, segue que a missão protestante é falsa.

[extraído de www.montfort.org.br]

Orar ou Rezar

Pergunta Quero perguntar a diferença entre orar e rezar, já que o dicionário Aurélio fala que são sinônimos. Porém, ao celebrar a Santa Missa, o Padre às vezes fala oremos e outras vezes rezemos. Os protestantes falam que devemos orar e não rezar… E que, segundo a Bíblia, não devemos orar repetidas vezes, e por isso eles condenam o Terço.

Resposta — Como já diz a consulente e o atestam os dicionários, orar e rezar são sinônimos. A Liturgia da Santa Igreja — cuja língua materna é o latim — emprega em diversas circunstâncias o oremus, que se traduz em vernáculo por oremos ou rezemos, posto que são sinônimos.

Cônego José Luiz Villac

Orar vem do latim orare; e rezar, do latim recitare, que também deu em português recitar. Já em latim, os verbos orare e recitare têm sentidos muito próximos: o primeiro significa “pronunciar uma fórmula ritual, uma oração, uma defesa em juízo”; o segundo, “ler em voz alta e clara” (portanto, o mesmo que em português recitar). Entretanto, para orare prevaleceu na latinidade e nas línguas românicas o sentido de rezar, isto é, dizer ou fazer uma oração ou súplica religiosa (cfr. A. Ernout–A. Meillet, Dictionnaire étymologique de la langue latine — Histoire des mots, Klincksieck, Paris, 4ª ed., 1979, p. 469).

Nós, católicos, damos ao verbo rezar um sentido bastante amplo e genérico, e reservamos a palavra oração mais especialmente — mas não exclusivamente — para os diversos gêneros de oração mental, como a meditação, a contemplação etc. Não há razão, portanto, para fazer dessa ligeira diferença, comum nos sinônimos, um tema de disputas.

Os protestantes, entretanto, salientam a diferença por dois motivos. Primeiro, porque para eles serve de senha. Com efeito, acentuando arbitrariamente essa pequena diferença de matiz entre as palavras, eles utilizam orar em vez de rezar, e assim imediatamente se identificam como crentes (como diziam até há pouco) ou evangélicos (como preferem dizer agora). Isso tem a vantagem, para eles, de detectar entre os circunstantes os outros protestantes que ali estejam. É um expediente ao qual recorrem todas as seitas dotadas de um forte desejo de expansão, como é o caso dos protestantes no Brasil.

Por outro lado, a oração, para os protestantes, não tem o mesmo alcance que para nós, católicos. Enquanto para nós o termo oração engloba todos os gêneros de oração — desde a oração de petição até as orações de louvor e glorificação de Deus — os protestantes esvaziam a necessidade da oração de petição, que para eles tem pouco ou nenhum sentido. Com efeito, como nós, católicos, sabemos, a vida nesta Terra é uma luta árdua, em que devemos pedir a Deus em primeiro lugar os bens eternos, e depois os bens terrenos de que temos necessidade. É o que ensinou Nosso Senhor Jesus Cristo.

A errônea doutrina protestante

Para os protestantes, não é preciso pedir os bens eternos, porque eles defendem erroneamente que a salvação depende exclusivamente de Deus, sem nenhuma necessidade da cooperação do homem. Segundo doutrina de muitas seitas protestantes, Deus já elaborou, desde toda a eternidade, duas listas: a lista boa, dos que irão para o Céu; e a lista negra, dos que irão para o inferno. Assim, quem está numa lista nada pode fazer para mudar de lista. Se está na lista boa, pode pecar à vontade, porque será salvo; e quem estiver na lista ruim pode rezar e fazer toda a penitência e as boas obras que quiser, que nada lhe adiantarão, pois já está condenado. Assim, a oração de petição, para eles, não tem nenhum sentido, nenhuma eficácia para a obtenção da vida eterna. Porque tanto a salvação como a condenação já estão predeterminadas desde toda a eternidade. Nestas condições, a única oração que tem algum sentido é a oração de louvor, glorificação de Deus e ação de graças. Pela escolha gratuita que Deus teria feito, de nos incluir na lista boa… Por isso, uma vez que entre nós, brasileiros, a palavra rezar, embora tenha um sentido abrangente e amplo, conforme foi explicado no início do artigo, remete mais à idéia de oração de petição, os protestantes preferem dizer orar, porque têm em vista preponderantemente a oração gratulatória (de ação de graças) e doxológica (de louvor e glória a Deus).

Quanto aos bens desta vida, tampouco tem muito sentido, para eles, a oração de petição. Pois, segundo a doutrina protestante, se temos fé — indício de que estaríamos na lista dos predestinados — Deus nos premia também com o sucesso na vida terrena. Não cabe refutar aqui essa falsa doutrina. Nossa intenção é apenas apontar a errônea — e, aliás, monstruosa — concepção teológica que está por trás de uma opção lingüística aparentemente inócua.

É louvável persistir no pedido

Para sustentar que “não devemos orar repetidas vezes”, os protestantes, como diz a missivista, apelam para a Bíblia. Provavelmente se referem ao Evangelho de São Mateus (6,7): “Nas vossas orações, não queirais usar muitas palavras, como os pagãos, pois julgam que, pelo seu muito falar, serão ouvidos”.

A interpretação deste texto de São Mateus não é entretanto a que os protestantes lhe dão. Ele significa simplesmente que a eficácia da oração não decorre da loquacidade, mas sobretudo das boas disposições do coração. As disposições sendo boas, em princípio, quanto mais se reza, melhor! E o próprio Jesus Cristo Nosso Senhor deu o exemplo de uma oração longa e repetitiva no Horto das Oliveiras, quando, prostrado com o rosto em terra, rezou por mais de uma hora, dizendo: Pai, se é possível, afaste-se de mim este cálice; mas não se faça a minha vontade, e sim a vossa (cfr. Mt 26, 39-44; Lc 22, 41-45).

Quanto à necessidade da insistência na oração, no Evangelho de São Lucas (11, 5-8 ) se lê a impressionante lição do Divino Mestre: “Se algum de vós tiver um amigo, e for ter com ele à meia-noite, e lhe disser: Amigo, empresta-me três pães, porque um meu amigo acaba de chegar a minha casa de viagem, e não tenho nada que lhe dar; e ele, respondendo lá de dentro, disser: Não me sejas importuno, a porta já está fechada, e os meus filhos estão deitados comigo; não me posso levantar para te dar coisa alguma. E, se o outro perseverar em bater, digo-vos que, ainda que ele se não levantasse a dar-lhos por ser seu amigo, certamente pela sua importunação se levantará, e lhe dará quantos pães precisar”.

A reiteração de nossos pedidos a Deus deve pois chegar a esse ponto da importunação, segundo o conselho do mesmo Nosso Senhor. E por aí se vê como os protestantes, abandonando a sabedoria da Igreja e arrogando-se o direito ao livre exame, se afastam da reta interpretação das Sagradas Escrituras, fazendo ilações lineares, sem levar em conta outras passagens sobre o mesmo tema, o que é indispensável para chegar ao verdadeiro sentido de todas elas.

Importunação do filho que enternece a mãe

Quanto à negação do valor do Terço, é mais uma vez o resultado da análise vesga que caracteriza toda a teologia protestante. O Terço é composto das mais sublimes orações: o Pai-Nosso, a Ave-Maria e o Glória ao Pai. Porém não se restringe à repetição mecânica dessas orações. Sua concepção é outra: enquanto os lábios proferem palavras sublimes, a mente se eleva à contemplação dos principais mistérios de nossa Fé e o coração se abrasa no amor de Deus e da Santíssima Virgem. Que exercício de devoção poderia haver mais precioso do que esse? Por isso os Papas o colocam logo depois da Santa Missa e do Breviário, para os sacerdotes, e da recepção dos Sacramentos pelos leigos. O Terço é uma suave importunação que enternece o Coração da Mãe de Deus, uma aparente contradição nos termos — importunação enternecedora! — que para nós, católicos, não constitui nenhum embaraço (a Bíblia a explica), mas que não entra numa cabeça protestante. Dá pena! Sobretudo dá pena que eles não tenham Nossa Senhora por mãe. É o que de pior podia lhes acontecer.

[extraído de www.catolicismo.com.br]

Uma alma verdadeiramente católica deve exultar ao tomar conhecimento de dons especialíssimos concedidos por Deus a nossa Mãe celeste

Valdis Grinsteins

Um dos temas que mais atrai a ira dos protestantes é a devoção devida a Nossa Senhora. Incompreensões e calúnias de todo gênero circulam a esse propósito.

Discutindo com protestantes, acabei constatando que, na raiz dessa posição, está sempre presente o orgulho. E este vício manifesta-se num ponto fundamental: o igualitarismo. Para uma pessoa orgulhosa, tudo aquilo que o outro possui, e ele não, é considerado um rebaixamento. Segundo tal mentalidade, para se evitar isso dever-se-iam suprimir todas as desigualdades. Aceitar-se-ia, quando muito, Deus como único ser diferente, mas nada de santos e criaturas privilegiadas.

Essa é uma mentalidade anti-católica. Para uma pessoa de mentalidade católica, o fato de outro possuir algo que ela não tem não representa uma afronta, não constitui uma agressão. Mas, pelo contrário, sentimo-nos felizes reconhecendo e amando a hierarquia estabelecida por Deus.

Arquitetonia da criação

Isto dito, compreende-se que um católico, quanto mais conheça privilégios de Nossa Senhora, sinta-se especialmente comprazido. E realmente Deus Nosso Senhor A cumulou com uma série de privilégios altíssimos. O que é perfeitamente arquitetônico no plano da criação.

O primeiro privilégio, do qual decorrem muitos outros, é a Imaculada Conceição, mediante a qual Nossa Senhora foi preservada do pecado original. Convinha que a Mãe de Deus fosse isenta de qualquer mancha de pecado.

Desse privilégio decorre a ausência da inclinação para praticar o mal. A Mãe de Deus não experimentava nenhuma das más inclinações que podem levar ao pecado, e, graças à sua fidelidade, não cometeu jamais a mínima imperfeição.

Igualmente — e este é o terceiro privilégio — Nossa Senhora teve um parto miraculoso e sem dor. Quando Adão e Eva pecaram, Deus disse a Eva: “Darás à luz com dor os filhos” (Gen 3,16). Sendo Nossa Senhora isenta do pecado original, compreende-se que o parto d´Ela não pagasse tributo à dor. O que é explicável, pois não convinha que a vinda do Salvador — alegria do Universo — ocorresse em meio à dor, mas sim numa atmosfera de júbilo.

Um quarto privilégio foi sua santa morte. A morte é fruto do pecado original. Disse Deus a Adão: “Tu és pó e em pó te hás de tornar” (Gen 3,19). Como a Virgem Santíssima foi concebida sem pecado original, não havia razão para Ela morrer. Poderia ir diretamente para o Céu, sem passar pela morte. Entretanto, Nossa Senhora desejou não ficar isenta dessa provação, pela qual até seu Divino Filho tinha passado. Por isso faleceu, mas de morte tão suave que, na linguagem católica, fala-se em Dormição da Beatíssima Virgem Maria. Sua morte não foi causada por doença ou velhice. Dominava-a tal amor de Deus, que Ela morreu mais propriamente devido a esse amor.

Um quinto privilégio: Seu corpo não se corrompeu no túmulo. A perda da vida acarreta a destruição da matéria, mas no caso d´Ela a morte não teve poder sobre a matéria. Nada se alterou, nada se perdeu. Por isso sua morte é comparada ao sono, à Dormição.

Obra-prima da criação

Um sexto privilégio é a plenitude das graças recebidas. Deus é grandioso, generoso, porquanto cria sem nenhuma necessidade de criar, fazendo-o porque assim o quer. E, ao criar, Deus decidiu que ao menos uma mera criatura recebesse tudo o que é possível a um ente criado receber. Assim, recebeu Ela já no primeiro instante de seu ser todas as graças possíveis.

Então manifesta-se um sétimo privilégio. Em tese, seria possível Ela a receber e rejeitar. Mas Nossa Senhora foi inteiramente fiel à graça, que A preservou de toda imperfeição.

Um oitavo privilégio foi a maternidade divina. Deus é a Sabedoria, e tudo o que faz decorre de uma razão altíssima. Qual seria o sentido de existir uma criatura a mais perfeita possível, isenta do pecado original e cheia de graça, e não lhe tocar uma vocação superior? Seria como uma obra de arte que não fosse exposta ao público e permanecesse fechada num cofre. Nossa Senhora é a obra-prima da criação, sendo lógico, portanto, que recebesse uma vocação proporcional à sua especialíssima situação. E que vocação pode haver mais alta do que a de ser Mãe de Deus?

Maternidade e virgindade

Tratemos de um nono privilégio. Deus quis que sua Mãe fosse Virgem. Por quê? Não é regra comum da vida que maternidade e virgindade sejam incompatíveis? A virgindade não é apenas algo físico, mas corresponde também a um estado de alma. Quis Deus que as mães votem um amor especial, do ponto de vista natural, pelos seres que geraram. Mas para Nossa Senhora Ele almejava mais. Ela devia ser dotada de todo o amor possível de Mãe, mas concomitantemente, de todo desapego das coisas do mundo que a virgindade produz nas almas. E Nossa Senhora, a mais perfeita das mães, devia ter alma de Virgem, a fim de fazer o mais perfeito sacrifício possível e praticar o supremo desapego: entregar seu próprio Filho para ser imolado, com vistas a redimir nossos pecados.

Um décimo privilégio de Nossa Senhora: sua Assunção aos céus, em corpo e alma. Compreende-se igualmente que, segundo o plano divino, um ser tão perfeito deveria receber um prêmio perfeito. Em contraste com os outros seres mortais, Ela está no Céu em corpo e alma.

Dispensadora das graças

Tendo-a chamado a Si, de forma tão privilegiada, compreende-se que Deus A tenha coroado como Rainha do Céu e da Terra. Este é o décimo-primeiro privilégio.

Finalmente, o décimo-segundo: a onipotência que Jesus Cristo lhe concedeu, estabelecendo-a como dispensadora de todas as graças. Tal privilégio, altíssimo sem dúvida alguma, é também um extraordinário prêmio para todos nós. Afinal, quem se beneficia dele? Nossa Senhora recebe todas as graças para as distribuir aos outros. Ela é a dispensadora, Aquela que entrega.

Voltamos ao início do artigo. Poderia alguém, com espírito de fé, lamentar tais privilégios? Posso eu sentir-me diminuído pelo fato de ser Ela a dispensadora de todas as graças? Como não ficar jubiloso ao saber que tão perfeita Mãe dispõe do poder de espargir entre seus filhos as graças divinas? Peçamos então o poderoso auxílio d’Ela. E rezemos pela conversão daqueles a quem o orgulho cega, não querendo entender a beleza de uma Mãe tão cheia de privilégios, que a todos eleva.

[extraído de www.catolicismo.com.br]

Na origem dos ataques à Santíssima Virgem, constatamos o ódio de seus inimigos à sua superioridade majestosa. O que é causa de alegria para seus devotos constitui motivo de ódio para os maus.

Valdis Grinsteins

Sempre me chamou a atenção a mania dos adeptos de seitas protestantes em atacar Nossa Senhora. Não só eles, mas também comunistas, ateus e outros inimigos declarados ou encobertos da Igreja Católica. Poder-se-ia supor que, por mero interesse tático, eles se absteriam de atacar a Mãe de Deus, para assim poderem afastar das fileiras sagradas da Igreja os incautos. E isso mais especialmente em países como o nosso, nos quais a figura materna é objeto de admiração e respeito. Mas dificilmente conseguem eles cessar suas invectivas. Preferem perder todas as vantagens que lhes traria a camuflagem ideológica, se ficassem calados nesse ponto e atacassem outros. Qual o motivo de conduta tão pouco razoável?

O ódio à superioridade

Para entender bem a questão, devemos primeiro analisar por que uma pessoa dominada pelo vício do orgulho não consegue se refrear diante da superioridade evidente de outro.

Quando Deus criou o mundo, decidiu colocar muitas perfeições nestas ou naquelas pessoas, em graus e formas diversos. Convinha à perfeição de Deus que houvesse um ser humano com todas as perfeições possíveis a uma criatura humana. Por que convinha? Porque Deus criou o universo à maneira de uma escada, onde um degrau leva a outro, uma perfeição conduz a outra. E, de degrau em degrau, chega-se ao alto. Alguém deveria ser o degrau superior, como que representar a soma das diversas perfeições dos degraus inferiores. E Deus escolheu, para ocupar tal lugar, justamente aquela criatura que desejou ter como Mãe. Por isso, Ele a fez não só perfeita, mas perfeitíssima.

Para o homem de hoje, subjugado pela obsessão do prazer, isso significa que Ela necessariamente teria todas as vantagens e nenhuma das cruzes atribuídas por Deus ao resto do gênero humano. Entretanto, seria difícil imaginar engano mais completo. Pois Ela também teria que refletir perfeições como a paciência na adversidade, a dignidade no sofrimento, a esperança no socorro divino. Basta pensar que Deus quis d’Ela que assistisse à morte de seu Divino Filho. Numa situação como a da Santíssima Virgem, o normal é que uma mãe sem grande virtude se pusesse a gritar, agredisse alguém, ou simplesmente desmaiasse de dor. Pior ainda, se fosse ímpia, poderia até blasfemar, julgando que Deus lhe pedira um sacrifício demasiado.

Pois bem, a atitude de Nossa Senhora ao pé da Cruz não poderia ser mais admirável e mais conforme à vontade de Deus. E mais dolorosa. Foi a de uma mãe perfeita.

O demônio odeia Nossa Senhora

Devemos ressaltar que no mundo neopaganizado de hoje, quando falamos de perfeição, normalmente as pessoas pensam na perfeição física, mais do que na perfeição moral, esquecendo-se de que a alma vale muitíssimo mais que o corpo. Do ponto de vista físico, basta lembrar que Nossa Senhora não estava sob o jugo do pecado original. Em vista disso, não sofria suas conseqüências, como os achaques da velhice, por exemplo.

Mas o mais importante é o aspecto moral. Pois neste âmbito, diversamente do estrito campo físico, temos a possibilidade de crescer, de ser melhores. Ou de ser piores. Nossa perfeição depende em boa medida de nós mesmos. Não basta receber uma graça, é preciso ser fiel a ela; não basta ter sido dotado de talento, devemos desenvolvê-lo.

E Nossa Senhora, neste ponto, atingiu a perfeição máxima. Não só porque tenha recebido evidentes e inigualáveis graças e talentos, mas porque soube ser fiel a eles e desenvolvê-los ao máximo. Tal esforço, Deus o pediu d’Ela. É verdade que as graças eram superiores, mas a fidelidade a elas era necessária.

E aqui se encontra a razão mais profunda do ódio que o orgulhoso vota ao perfeito: este conseguiu ser fiel às graças, ao passo que o orgulhoso não o foi. E isto torna-se patente por ter ele o vício do orgulho. O orgulhoso não tolera a proclamação do seu fracasso, e o perfeito proclama esse fracasso simplesmente pelo fato de existir. Se não houvesse vitoriosos nessa luta pela virtude, ele não se sentiria humilhado, seria apenas mais um que falhou. Mas, como existem aqueles que triunfaram, a inferioridade deles torna-se óbvia. O demônio foi um anjo, e como tal foi submetido a uma prova, tendo falhado miseravelmente por sua culpa. Entende-se por isso que ele não possa suportar a simples existência de Nossa Senhora, que passou magnífica e vitoriosamente pela prova que lhe foi apresentada.

Superioridade esplendorosa

O que mais irrita as pessoas orgulhosas não é apenas que outro seja superior, mas que tal superioridade seja difundida, reconhecida, elogiada, apresentada como modelo. Talvez lhes fosse suportável uma superioridade que existisse escondida, posta de lado, abafada.

Em termos religiosos, os orgulhosos até não têm grande dificuldade em admitir a superioridade de Jesus Cristo, porque Ele, embora sendo verdadeiro homem, é também verdadeiro Deus; e como nós, homens comuns, não podemos ser deuses, isso lhes parece mais tolerável. Mas que alguém que seja simplesmente um ser humano como eles, tenha chegado a um grau de perfeição que eles são incapazes não só de atingir, mas até de conceber inteiramente, isso os deixa fora de si. Por esta razão, não suportam ver ou ouvir falar de Nossa Senhora.

Também nisso comprovam eles como estão longe da perfeição. Toda pessoa de reta intenção gosta de reconhecer o progresso dos outros, não se importando que sejam mais do que ela. Pode ser que uma pessoa não tenha nenhuma capacidade para pintar um quadro. Mas se sua alma está em ordem, fica contente em ver a aptidão e o progresso de outros aos quais esse talento foi concedido. Irritar-se diante da superioridade de Nossa Senhora, como agem tantos protestantes, comprova tão só a deficiência espiritual deles.

Para terminar, basta pensar o que seria o mundo se não houvesse uma criatura perfeita e admirável como Nossa Senhora. Se em todas as criaturas meramente humanas, por melhores que fossem, pudéssemos sempre apontar este ou aquele defeito, faltaria ao conjunto dos homens aquele esplendor de perfeição que Nossa Senhora lhe comunica. Seria como mesa sem verniz, ou um piano ao qual falta uma nota. E o conjunto todo ficaria afetado.

Que Nossa Senhora seja perfeitíssima, só pode alegrar os que preferem a harmonia do conjunto ao interesse próprio. Que Ela ajude a todos nós a compreender e amar isto.

[Extraído de www.catolicismo.com.br ]